Sabe o livro Morte e Vida Severina, lançado em 1966 por João Cabral de Melo Neto? (Se não sabe, balança a cabeça e finge que sabe por que pega mal). Então, depois de ser apresentado ao público das mais diversas formas ao longo destes 43 anos – de trás pra frente, de frente pra trás, monólogos, coletivos de teatro, musicais e tudo que o valha - agora a dura trajetória do nordestino que emigra em busca de melhores condições de vida no litoral ganha uma versão moderna, digital e sampleada.
Esta é a proposta do Projeto Outros Silverinos Remix, em exibição no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo. A séria de espetáculos, cuja direção geral cabe a Lucas Bambozzi e Fernão Ciampa, trará nomes como DJ Dolores, o multimúsico Lívio Tragtenberg, a artista plástica Lenora de Barros e os rapazes do Nação Zumbi Toca Ogan e Dengue fazendo interpretações livres do livro a partir de “atuações mediatizadas e intervenções ao vivo de áudio e vídeo”.
O Soul Sampa foi conferir a apresentação do DJ Dolores, na última terça-feira. O cara arrasou! Foi uma apresentação super experimental, com o claro intuito de sensibilizar o público para questões como a pobreza, o desastre ambiental, a desigualdade social, as diferenças de gênero e raça – questionando, inclusive, este conceito - ainda existentes no Brasil e no mundo, entre outros. Uma beleza! Forte e implacável, como vocês podem conferir no vídeo abaixo:
Se você não sabe de que raios eu estou falando, segue um trecho do poema dramático de João Cabral de Melo Neto:
O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
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